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TJRO inicia julgamento da nebulosa Operação Apocalipse; relembre os bastidores

O Tribunal de Justiça de Rondônia iniciou na última quinta-feira o julgamento da Operação Apocalipse, que foi feita à revelia do Ministério Público, comandada à época pelo deslumbrado secretário de Defesa de Confúcio Moura, Marcelo Bessa.

A operação, que tinha como principal objetivo atingir o então presidente da Assembleia Legislativa de Rondônia, Hermínio Coelho, e tirar do encalço de Confúcio Moura alguns credores de sua campanha eleitoral, quase afundou o governo.

Marcelo Bessa comandou a Apocalipse

Cheia de ilegalidades, baseada em um depoimento feito por uma pessoa que na época apresentava quadro de instabilidade mental e sentia-se traída pelo esposo, a Apocalipse foi uma invencionasse que resultou em mais de 80 mandados de prisão, alguns estapafúrdios. Para dificultar a defesa dos réus, Bessa conseguiu convencer a justiça que os acusados faziam parte de uma grande quadrilha de traficantes, que trazia carretas cheias de cocaína durante anos de Guajará-Mirim, pela BR, sem nunca ter sido pega. Com a classificação de tráfico, as prisões eram inafiançáveis. A Apocalipse nunca encontrou uma bituca de cigarro de maconha que justificasse a manutenção dela na Vara de Delitos de Tóxicos.

Uma escuta feita na época, revelou que um elemento que estava preso, havia pedido ao réu Alberto Ferreira de Siqueira, o Beto Baba, R$ 250 para pagar a cantina do presídio. A polícia declarou que o dinheiro seria para compra de drogas dentro da unidade prisional, e pronto, estava feita a conexão com tráfico.

A Apocalipse tinha méritos, não fosse a lambança promovida por Bessa e seu braço direito à época, o também deslumbrado ex-subtenente do exército, Marcus David Gomes de Resende que chegou a ser preso por deserção, ambos com fortes ambições políticas (Bessa tentou ser deputado federal e Marcus Resende, estadual), a operação teria sido bem sucedida.

Marcus Rezende queria ser deputado estadual

A dupla Beto Baba e Fernando Braga Serrão, o Fernando da Gata, resolveu entrar na política pela porta dos fundos. Ainda em 2010 eles chegaram a fazer algumas doações a campanha de Confúcio Moura, camionetes e combustível foram alguns dos ítens. Em troca, Confúcio alugou um apartamento que Beto tinha em um prédio de luxo, pagando bem acima do valor de mercado, para abrigar seu guru, o eterno ministro de coisa nenhuma, Mangabeira Unger.

Governo de Rondônia bancou apartamento por mais de dois anos para Mangabeira Unger. Ele usou o imóvel por no máximo 2 meses

Beto gostou tanto da brincadeira que na mesma época financiou a campanha de Ana da 8, que faleceu recentemente vítima de Covid-19. Ela chegou a registrar em cartório que daria a Beto e seu grupo, cargos em seu gabinete e destinaria emendas a quem eles indicassem. Mas Ana da 8 tinha outros planos, e não entregou o combinado. Nesse período, dezenas de ‘manifestantes’ foram à Assembleia durante dias pedir a cassação da deputada, e o documento chegou a circular publicamente.

Fernando da Gata e Beto Baba

Já em relação a Confúcio, Beto queria mais que apenas o apartamento. E emissários começaram a pressionar o governador. Grande parte de tudo isso foi publicado pela coluna PAINEL POLÍTICO, assinada por este que vos escreve neste momento. Foram bastidores revelados com exclusividade, e o Ministério Público estava atento, e mandaria a turma para a cadeia. Mas Bessa ignorou os apelos do então Procurador Geral de Justiça Héverton Aguiar. O vídeo abaixo é de uma coletiva na época da operação onde o MP aponta as ilegalidades:

Jair Montes

A Apocalipse também tinha entre seus alvos o então vereador Jair Montes (agora deputado estadual). Foi a ex-esposa de Jair, que faleceu alguns meses depois da operação, a responsável por um depoimento fantasioso à Polícia Civil. Ela estava com problemas psicológicos na época, acreditava que o marido a traía, e sua condição mental foi comprovada por laudos anexados pela defesa. Em sua declaração, ela afirmou que Jair recebia em sua casa, todas as semanas, uma carreta carregada de cocaína que vinha de Guajará-Mirim, e a droga ficava guardada no forro da casa do então vereador. Nas operações de busca da Apocalipse, os investigadores descobriram que no forro da casa de Montes não caberia uma carteira de cigarros sequer. Mesmo assim, o depoimento foi usado como base das investigações.

Quando a operação começou a desandar, os delegados e alguns agentes que trabalhavam na linha de frente da Apocalipse foram transferidos para trabalhar na Caerd, ganhando gordas gratificações.

No julgamento iniciado na quinta-feira, 18, pelo menos 30 pessoas constam na pauta como apelantes, além do Ministério Público como apelado e um banco como assistente de acusação. Ao logo do processo, já foram pelo menos 152 recursos.

Na sentença de primeiro grau, proferida em dezembro de 2018 com 520 páginas, das 50 pessoas denunciadas pelo Ministério Público, 27 foram condenas e quatro absolvidas.

A 1ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Rondônia, composta pelos desembargadores Daniel Ribeiro Lagos, Valter Oliveira e José Antônio Robles, tem a ‘caneta pesada’, e eles terão muito trabalho neste julgamento.

Abaixo, para quem tiver paciência de ler, o relatório do inquérito da Operação:

E aqui embaixo, a denúncia do MP, onde ele pede alguns arquivamentos e aponta ilegalidades:

Jornalista, consultor em comunicação e gestão de crise

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